Publicado por: cachalote em: Maio 23, 2008
Escrevi essa crôniquinha em 31 de março de 2007. Lembro-me agora que a escrevi em plena madrugada e que a dor da perda chacinava-me a mente. Por que tudo tem que ser findável?
Cher Ami e a Guerra do Amor
Era verão. O calor era infernal. Miguel estava deitado na rede de sua varanda com um papel branco na mão. Para ele, o ar literalmente estava estático e o mundo havia parado de girar. Não se importava com as conversinhas dos pássaros ou com a brisa agradável que acabara de afagar o campo de papoulas vermelhas que se alastrava por quilômetros defronte sua casa. Naqueles dois segundos, Miguel se lembrou de tudo, e o pior; entendeu tudo. Como uma sardinha que nada sabe da latinha, ele despertou de um sonho que parecia tão real, que enlouqueceu. E tudo havia começado com uma campainha, há três anos. Miguel ainda trabalhava na loja de doces de seu Manoel. Estava atendendo a marquesa e sua filha caçula, metida à princesa, quando ouviu a campainha da porta da frente tilintar, e por um reflexo rotineiro, olhou para a porta e se apaixonou. Não pela porta, é claro, mas pelo que passava por ela. Era a filha do jardineiro, Anna, que ainda pequena fora levada por uma tia rica para ser educada, e quem sabe, conseguir a sorte da família ao se casar com um Barão, ou até um Visconde. Anna era o Sol. Seus cabelos ruivos e ondulados pulavam de acordo com seus passos. Ainda não se descobriu se aquele ângulo do Sol, às 16h33min, fora uma armadilha do cupido ou do próprio Sol. De qualquer modo, ela estava linda, aos seus sucintos quinze anos. Naquele momento ela era para Miguel um sonho distante. Perplexo, deixou quatro jujubas ao vento.
Passado o episódio, toda quarta-feira era motivo de alegria: era o dia em que ia comprar chocolate com macadâmias. Miguel sentia feixes de adrenalina por todo o corpo, só com a sua presença. Mas Miguel era um sujeito cheio de nada. E à noite, sempre que fechava os olhos, voltava a ver a impureza de sua alma. O egoísmo, a falta de lealdade para com alguns, o ciúme, os palavrões que havia dito. Ansiava-se pela integridade mental, pela ética, pela pureza. Mas estes defeitos eram sua sina, seu vício. Adorava lamentar-se. Mas quando voltava a pensar em sua pequena, tudo aquilo se diluía em pequenas doses de consciência pesada, que consumia sem se martirizar durante o dia.
Com o passar do tempo surgiram alguns flertes entre os dois. Agora ela já vinha comprar chocolates três vezes por semana. Primeiro tornaram-se amigos, depois confidentes, e finalmente amantes. Graças a uma mística insolúvel, ambos se completavam violentamente. Ela pobre, altruísta, delicada, preocupada e ouvinte, enquanto que ele rico, individualista, ciumento, egocêntrico e falante, porém culto e intelectual. Mas ninguém sabia de suas falhas profundas, suas talhas morais, nem ele. Apenas ela. Ela o aceitava. O protegia dele mesmo, de seus surtos de dúvida em relação à vida, o universo e tudo mais. Mas com a chegada e partida das estações, as lástimas cresciam e tornaram-se latejantes para ela. Conheceu outro. Fugiu e deixou Miguel só.
Miguelito, perdido em sua confusão, havia caído da nuvem em que admirava o Sol. Jurou vingança ao vento, dando murros e pontapés no ar. Corrompido pela dor de cotovelo, além de seu amor, perdera seu emprego e dignidade. Há semanas não saía daquela varanda. Estava barbudo e só bebia leite. Sentia na própria pele todos os seus erros. Suplicava a todos os Deuses que pudesse concertá-los, mas naquele verão, não havia estrelas cadentes. Foi numa dessas epopéias que lhe apareceu um pombo branco. Para seu encanto, carregava um bilhete, uma mensagem! Só podia ser de Anna e trazia as inscrições: “Querido, me perdoe. Ainda o amo. Espere mais um pouco, voltarei”. Naquele instante, todas as emoções que viveram juntos, reapareceram. As brincadeiras, as manias, os beijos, os abraços, os cheiros, as pintinhas que ela carregava na nuca, tudo. Mal se conteve. Mais do que depressa escreveu alguns versos de felicidade para mandar de volta, via pombo-correio. Esse jogo durou meses. E o som mais doce na face da terra já não era mais a voz do Sol, mas o piar de um pombo.
Raiou um dia de céu límpido. Os filhos do marquês estavam a brincar por aquelas redondezas com uma carabina. Viram o pombo, atiraram e acertaram. Miguel saiu correndo, falou umas poucas e boas para os inconseqüentes, apanhou a mensagem e foi para casa. Quando viu o bilhete em branco, empalideceu. Recorreu a todas as mensagens dos últimos três meses. Todos estavam em branco! Miguel havia enlouquecido. Assustado, percebeu a gravidade da situação: Anna apenas o deixara porque ele nunca realmente estava para ela. Só para si mesmo. E ela era onipotente para ele. E mesmo que o amor doentio dele fosse verdadeiro, de nada adiantava, pois ficara cego e frio graças aos seus vícios. E o pombo, símbolo da paz e esperança, foi seu único companheiro. Acompanhou a loucura de Miguel, e até fez parte do jogo. E no único momento em que Miguel poderia realmente ter feito algo pelo seu ‘querido amigo’, somente se preocupou com a mensagem, que não estivesse ensangüentada e ilegível.
Dizem as más línguas que Miguel ainda está na rede até hoje. Anna se casou e teve dois filhos. Seu marido, de longe não a completava como Miguel, seu grande amor. Mas o marido não era comodista. Ele se preocupava com ela, deixava-a confortável e protegida de tudo. Ela sabia que em alguns momentos da vida temos que escolher aquilo que nos faz bem, em vez daquilo que queremos.
Jasmin Druffner (Fish)
PS: Para entender alguns detalhes subliminares:
http://www.google.com/search?q=cache:_3PJp9Pt_7sJ:www.apasfa.org/futuro/pombos_cher_ami.doc+cher+ami&hl=pt-BR&ct=clnk&cd=8&gl=br