Publicado por: cachalote em: Junho 20, 2008
Desta vez estou publicando uma crôniquinha que escrevi pra concorrer no concurso literário da revista Piauí. A idéia era a seguinte: eles publicavam uma frase aleatória e a partir dela escrevia-se uma crônica. Não ganhei, mas gosto da minha crônica ainda assim! Apreciem “A classe social do Baralho”! PS: A frase em negrito no meio do texto era a frase daquele mês.
http://www.revistapiaui.com.br/
A classe social do Baralho
Cloud havia se mudado para a República dos Bananas no início de 1940; estava a escapar da segunda grande Guerra. Não que ele tivesse medo, Cloud nunca amou outra pessoa para sentir tal medo, aliás, em todos os seus 25 anos, Cloud só havia tido um único e verdadeiro amor: o baralho. O único motivo para ter se mudado para o Brasil, e posteriormente para Petrópolis, em 1945, foi graças ao pôquer. Com a Guerra em desenvolvimento, pouquíssimas pessoas se davam ao luxo de visitar Cassinos. Gostava de lembrar-se de como era fascinado, desde menino, por um joguinho de buraco. Ele e sua mãe jogavam nas folgas dela, ela era Taróloga, e sempre ganhava. Mas agora estava longe disso tudo, longe da querida Ardennes, e sua única ligação com a França era seu maldito sotaque. Sotaque este que foi seu único e fatal obstáculo para deslanchar na gloriosa carreira de bicheiro, no Rio de Janeiro da década de 50.
Trabalhava como banca no palácio Quitandinha. Estava farto de competir com a corrupção. Costumava jogar com gente rica de toda laia. E não importavam seus jogos, sempre subornavam a banca, e ele perdia. Por isso passou a apenas dar as cartas, e assistir aos jogos. Adorava o barulho do Cassino, das fichinhas, o cheiro do álcool e da fumaça, as prostitutas vestidas à La Moulin Rouge genérico, as interesseiras com grandes sorrisos e os falsários, misteriosos. Sempre pensava que aquilo era um verdadeiro reflexo da sociedade. Aquilo era o sucesso. Os pobres nem entravam, os ricos sempre venciam e os falsários sempre eram descobertos, mais cedo ou mais tarde. Era a Hipocrisia concentrada em doses de tarja preta. E ele amava tudo aquilo.
Cloud respirou tão fundo que o cheiro de charuto que respirou chegou ao fundo de seus pulmões sem entender que lugar quente e úmido era aquele que havia se metido. Tampouco compreendeu, antes de se mesclar com o perfume de Mirna, que batida sensacional era aquela. De qualquer modo, o mancebo estava a ministrar um jogo sensacional: um falsário, um latifundiário, um leiloeiro, Mirna – a esposa do cafetão, Joe – e uma Chinesa viúva, que havia dado o famoso golpe do baú, e havia descoberto que estava com tuberculose e queria gastar seus milhões. Ele implicava com leiloeiros; apreciava mais os falsários. Os leiloeiros sempre começavam apostando alto, como se fosse um verdadeiro leilão. Sempre acabavam perdendo, é claro. Já os falsários, sempre apostavam cuidadosamente. O engraçado mesmo é que agiam como se fossem um ás de ouros, quando na verdade eram um dois de copas. Mas o verdadeiro coringa, no meio de toda a classe social do baralho, era Cloud. E ele sabia, mas não queria se aproveitar disso. Tinha um coração bom demais para isso. Sabia que dinheiro não traria felicidade, seu dom não faria ninguém amá-lo. No fim do jogo, tudo seguiu seu curso: Mirna fez aquilo que gosta, a Chinesa havia ficado pobre, o falsário desmascarado, o leiloeiro estava rouco e o latifundiário ganhou uma graninha extra.
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